TRIBUTO - À memória de Aurelino Marques da Cruz

 

TRIBUTO

À memória de Aurelino Marques da Cruz

 


Recebi, com grande pesar, a notícia do falecimento do meu velho amigo, Sr. Aurelino Marques da Cruz. Ele faleceu ontem, dia 26 de outubro de 2026, aos 107 anos. Cigano Calon, sempre fez questão de afirmar, com orgulho, que era baiano!

Conheci o Sr. Aurelino em 2006, quando chegou a Curitiba com seus filhos e netos, estabelecendo acampamento em um terreno público no bairro Fazendinha.

Na época, juntamente com uma equipe de voluntários, desenvolvíamos iniciativas de acolhimento às comunidades ciganas itinerantes que passavam pela cidade. Lembro-me de chegar ao acampamento pela primeira vez e ser muito bem recebido pelo Sr. Aurelino e por dona Anolfina, sua esposa, com um café e um pedaço de bolo. Uma visita inesquecível!

Com o passar do tempo, à medida que nossa amizade se estreitava, fomos desenvolvendo ações de assistência em diferentes áreas, especialmente na saúde, no acesso a direitos e na segurança alimentar.

Certo dia, em 2008, o Sr. Aurelino compartilhou comigo um sonho: aprender a escrever o próprio nome. Na ocasião, perguntou-me se poderíamos "abrir uma escola dentro do acampamento, para ensinar os grandes (adultos) a assinar".

Diante daquele pedido, logo nos organizamos e estabelecemos uma parceria com a Secretaria de Estado da Educação do Paraná, por meio do programa Paraná Alfabetizado.

Em poucas semanas, compramos uma tenda e a montamos no terreno ocupado pelo grupo. Lembro-me de que contamos também com a ajuda de outro amigo cigano, imigrante português, chamado Augusto, que pagou as custas para fazer o piso da “escolinha”.

Assim, inauguramos o que, à época, identificávamos como a primeira escola de alfabetização instalada dentro de uma comunidade cigana itinerante no Brasil.

Um dos dias mais emocionantes dessa história foi quando, estando ao lado do Sr. Aurelino e de nossa professora, testemunhei o momento em que ele escreveu seu próprio nome pela primeira vez.

"Igor, é a primeira vez que estou escrevendo meu nome", disse ele, com nítida alegria e entusiasmo.



Aquelas palavras me emocionaram profundamente. Diante dos meus olhos, um homem que já havia vivido tantas décadas realizava um sonho aparentemente simples, mas de significado imensurável: escrever, com as próprias mãos, o nome que carregara durante toda a vida.

O tempo passou, e a comunidade retornou à Bahia. Tive o privilégio de visitá-lo em Porto Seguro, em 2014, ocasião em que o vi pessoalmente pela última vez. Sempre que possível, mantive contato com seus familiares, especialmente com uma de suas netas, Gleisi, amiga de minha esposa, que até poucos meses atrás residia em Curitiba.

Hoje, ao receber a notícia de sua partida, não posso deixar de recordar sua generosidade, sua hospitalidade, sua dignidade e, sobretudo, a alegria estampada em seu rosto naquele dia tão especial.

O Sr. Aurelino partiu, mas deixou um legado. Foi um cigano de valor, um homem honrado, que constituiu sua família, criou seus filhos e atravessou mais de um século de história, preservando sua identidade e suas raízes.

Para mim, sua história permanecerá como testemunho de que nunca é tarde para aprender, sonhar e realizar.

Que Deus console o coração de seus filhos, netos, bisnetos e de todos os familiares e amigos.

Descanse em paz, meu velho amigo Aurelino. Sua memória permanecerá viva entre nós.

Postagens mais visitadas deste blog

QUANTOS CIGANOS VIVEM NO BRASIL?

Ciganos, os indesejados